Há um vocabulário inteiro que se usa em voz baixa e quase nunca se explica. Quem chega a ele pela primeira vez ouve siglas, palavras em inglês e regras que parecem de clube secreto. Não são. São a forma que esta comunidade encontrou de combinar tudo antes de começar, e é por isso que funciona. Confissão n.º 04: o dicionário, e o que vestir em cada ocasião.
Primeiro, a regra que não está no dicionário
Tudo o que vem a seguir assenta numa palavra: consentimento. Combinado antes, entre adultos, com limites ditos em voz alta e uma forma de parar a qualquer momento. Sem isso não há BDSM, há só um problema. A lingerie ajuda a contar a história; quem escreve o guião são as duas pessoas, e o guião pode mudar a meio.
O dicionário, de A a Z
- Aftercare. O depois. Água, uma manta, conversa, um abraço — o que cada um precisar para voltar ao chão. É tão parte da cena como a própria cena.
- BDSM. Três pares numa sigla: bondage e disciplina (B&D), dominação e submissão (D/s), sadismo e masoquismo (S&M). Ninguém é obrigado a gostar dos três. A maioria das pessoas gosta de um bocadinho de um deles.
- Bondage. Prender ou ser preso: algemas, amarras, cordas, fitas. O prazer está na entrega e na antecipação, não no aperto — nada deve deixar marca de circulação.
- Bottom e top. Quem recebe a acção e quem a conduz, dentro de uma cena. Não é o mesmo que submisso e dominante: é a posição naquele momento, não a identidade.
- Brat. O submisso que provoca, desafia e faz questão de não obedecer à primeira. Faz parte do jogo, e é combinado.
- Cena. O momento do jogo, com princípio, meio e fim. Negoceia-se antes, vive-se durante, conversa-se depois.
- Coleira. Acessório, símbolo ou compromisso, conforme o casal. Entre quem leva isto a sério, oferecer uma coleira pode valer tanto como um anel.
- Dom, Domme, dominatrix. Quem domina. Dom no masculino, Domme no feminino; dominatrix é a palavra que ficou no imaginário, muitas vezes associada a quem o faz profissionalmente.
- Fetiche. Um objecto, um material ou uma situação que carrega desejo por si só: o verniz, o couro, os pés, as meias com costura. Todos temos pelo menos um; nem todos lhe damos nome.
- Harness (arnês). Estrutura de tiras que desenha o corpo — peito, cintura, coxas. Pode ser só estética, por cima de lingerie ou até de roupa, ou pode servir para prender.
- Impact play. Tudo o que é palmada, pá ou chicote. Começa-se sempre devagar, em zonas com músculo (nádegas, coxas) e longe de ossos, rins e coluna.
- Kink. Qualquer gosto que fuja ao guião convencional. BDSM é um tipo de kink; nem todo o kink é BDSM.
- Limites. Os hard limits não se negociam, nunca; os soft limits são zonas cinzentas que se podem explorar com cuidado. Dizem-se antes, não se descobrem durante.
- Negociação. A conversa antes da cena: o que sim, o que não, o que talvez, como se pára. Parece pouco romântica. É o que torna o resto possível.
- Palavra de segurança (safeword). Uma palavra que ninguém diria por acaso e que pára tudo de imediato. Muitos usam o semáforo: verde continua, amarelo abranda, vermelho pára. Com a boca ocupada, combina-se um gesto — largar um objecto, bater três vezes.
- RACK e SSC. Os dois lemas da comunidade. SSC: são, seguro e consensual. RACK: risco assumido e consensual, para quem prefere reconhecer que nenhum jogo tem risco zero.
- Shibari. A arte japonesa de amarrar com corda, tão estética quanto técnica. Não é para improvisar a partir de um vídeo: aprende-se com quem sabe.
- Sub, submisso. Quem se entrega ao controlo do outro — por escolha, e com poder de parar tudo com uma palavra. É, por isso, quem manda de facto.
- Subspace. Um estado de quase transe que alguns submissos atingem durante a cena. É também a razão pela qual o aftercare existe.
- Switch. Quem gosta dos dois lados e troca conforme a noite ou a pessoa.
- Vanilla. Baunilha: o sexo sem nada disto. Não é insulto — é o ponto de partida de quase toda a gente.
- Wetlook e verniz. Os materiais brilhantes que parecem molhados. São a farda informal das festas fetish, e os que mais depressa mudam a forma como alguém se sente ao espelho.
O que vestir em cada ocasião
1. A primeira vez, a dois, em casa
Nada de fardas. A peça certa para começar é a lingerie que já se tem, com um elemento novo por cima: umas algemas de renda com fita de cetim, uma máscara de olhos ou um arnês de peito sobre um soutien preto. Uma peça muda o clima; cinco peças novas de uma vez tornam-se um traje, e o traje distrai.
2. Noite de jogo: quem conduz
Aqui a roupa tem autoridade. Efeito pele, atacadores, recortes com propósito: um body efeito pele com atacadores ou um harness de tiras sobre meias pretas. Saltos, se os pés aguentarem a noite inteira. Quem conduz não se ajusta a meio da cena.
3. Noite de jogo: quem se entrega
Renda, transparência e um detalhe que diga «pertenço a esta cena»: uma coleira, uma gargantilha com algemas ou um babydoll com correntes. A regra prática: tudo o que prende deve abrir depressa, e nada que aperte o pescoço.
4. Festa fetish ou clube com código de vestuário
A maioria dos clubes exige dress code fetish, e à porta não se discute: preto, couro, verniz, wetlook, látex. Quem vai pela primeira vez acerta com uma base simples — leggings de efeito couro ou um vestido de efeito látex — e um harness por cima. Leve um casaco comprido para o caminho: o que é código de vestuário lá dentro é conversa de vizinhos cá fora.
5. O segredo que só dois sabem
Um jantar normal, com uma coisa que não é normal por baixo da roupa: um arnês de renda debaixo de uma camisa escura, ou meias com cinta-liga debaixo de uma saia de escritório. Ninguém vê. É esse o ponto.
6. Para quem já sabe o que quer
Quem passa do sintético à pele verdadeira não volta atrás. A ZADO trabalha pele à mão — pás, chicotes, harnesses — e é o material que envelhece bem e ganha forma com o uso.
Materiais e cuidados
- Pele verdadeira: limpa-se com um pano húmido e alimenta-se de vez em quando com creme para couro. Nunca na máquina.
- Efeito pele e wetlook: pano húmido e secagem à sombra. O calor directo estala o acabamento.
- Metal (argolas, fivelas, correntes): seco depois de lavar, para não oxidar.
- Algemas e amarras: prefira as acolchoadas; confirme que passa um dedo entre a algema e o pulso; e tenha sempre uma tesoura de pontas redondas à mão quando houver fitas ou cordas.
- Tamanhos: a maioria dos harnesses ajusta-se com fivelas. Na dúvida, escreva-nos com as suas medidas — respondemos sem corar.
Está tudo na colecção Fetish & BDSM, e as peças de bondage da Cottelli e da Bad Kitty têm casa própria em Cottelli e Bad Kitty. Para o que se veste por baixo, a confissão n.º 01 explica a diferença entre corpete e espartilho, e a n.º 03 ensina a vestir meias de rede sem dar o nó.
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